04/01/2015 18:57 | Texto 49: Postado por Alex

Literatura, Ciência e Barbárie

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Novo artigo convidado de Ângelo Alves (De Rerum Natura)


Foto: Lise Meitner

O trauma da segunda guerra mundial foi inultrapassável para alguns dos grandes escritores judaicos do século vinte: Primo Levi, Jean Améry, Stefan Zweig, Paul Celan, etc. Para o homem justo a iniquidade e a barbárie são carcinomas, na maioria dos casos, fatais.
 
Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, Stefan Zweig, que convivera com grandes pacifistas e filantropos - Romain Rolland, James Joyce, Thomas Mann, Paul Valéry - exilara-se no Reino Unido e, posteriormente, no Brasil, onde se suicidaria em 1942. No seu livro de contos “Confusão de Sentimentos”, soberbamente traduzido para português, há uma tendência para o destino guiar os homens para a paz, mesmo quando esta advém da morte e da separação. Porém, o destino de Zweig acabará de forma trágica, a única saída que encontrou para o desassossego que o invadira após a ascensão do nacional-socialismo. Para ele a paz e a liberdade são valores que o homem jamais pode abdicar.
 
Paul Celan - que, na minha opinião, influenciou indelevelmente a poesia do último quartel do século vinte e a hodierna, com o uso abusivo de metáforas e uma escrita hermética -, depois de perder os pais num campo de concentração alemão -  acontecimento que perpassa em toda a sua poesia, mormente no poema belíssimo “Sete Rosas Mais Tarde” – acabou, também ele, por se suicidar em 1970 no rio Sena. Para  Celan a morte é a vida do Nada que somos, visão trágica e pessimista da natureza humana, que se subentende em versos como “...morro e apago-me/ na grande monção – é então que verdadeiramente vivo…”, “confia no rasto das lágrimas/ e aprende a viver,” “o grito de uma flor/ anseia por uma existência”– o nada anseia pela vida, sofrer é ser nada, mas só pelo sofrimento o nada viverá. Como? Pela arte. É uma visão oposta ao existencialismo de Albert Camus. Para Camus a vida é um absurdo porque nada sabemos sobre a morte. Assim só temos uma saída: sermos felizes e justos…Hoje, Celan está bem vivo, felizmente, porque seguiu o caminho da dor – da arte.
 
Um desfecho completamente diferente teve a física Lise Meitner: viveu noventa anos. Judaica, como os anteriores, refugiou-se em Estocolmo, enquanto, na Alemanha, Otto Hahn bombardeava urânio com neutrões. Da reacção obteve, como fragmentos, o rádio e o bário – o último não o identificou de imediato. Foi Lise Meitner que, correspondendo-se com ele, explicou todo o processo da fissão nuclear. O Nobel da Química acabou por ser entregue somente a Otto Hahn. No caso do efeito fotoeléctrico, tanto Philip Lenard como Einstein receberam o Nobel; ainda que Lenard - nacional–socialista - reclamasse a explicação do efeito fotoelétrico, Einstein é que deu o último e decisivo passo para a sua compreensão: oquantum de luz.
 
Os cientistas, geralmente, conseguem suster a dor, ao contrário dos escritores. Nestes a dor sobe até transbordar. Ambos têm ambições mas, para o escritor, a dor corre mesclada com as letras. No fim, quer um quer outro, sobrevivem à morte.
 
A ascensão da extrema-direita na Europa é, para mim, de todo incompreensível, uma regressão. Não se repita o passado. Os “assassinos escrevem poemas”, é verdade senhor Celan, os assassinos escreveram poemas, assim como a injustiça, no meu país, continua a escrever poemas.
 
Ângelo Alves

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